iMom

Agosto 9, 2016 14:19
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Como fã incondicional de ficção científica, iMom entrou a certo ponto no meu roteiro. Gosto de colecionar as várias abordagens que diferentes autores dão ao mesmo género. Neste caso Ariel Martin apresenta-nos (mais) uma abordagem à ficção científica assente no “complexo Frankenstein”. Este termo de autoria do pai da ficção científica moderna, Isaac Asimov, engloba os enredos em que a criação se vira contra o criador.

Uma nota em relação ao primeiro parágrafo: devem estar a pensar que estraguei o fim do filme. Não. O fim da curta é algo previsível. Não previ o desfecho exato quando vi, confesso, mas é notório que a intenção do filme é “correr mal”. E assim corre. Desenganem-se porque o que torna esta curta excelente não é o desfecho em si, mas sim a sua execução.

Portanto, neste futuro temos a “iMom”, uma “mãe” robótica, que ajuda as mães biológicas nas lidas de casa. Senti, mesmo antes de ver o filme, uma sátira ao consumismo da atualidade (produtos apple começados por i). Ver o filme reforçou mais esta ideia. É referida a “necessidade” de trocar pelo novo modelo por ter características melhores, por exemplo. O enquadramento é montado com vários clips de testemunhos de clientes da iMom.

A fotografia remete-nos sempre para a escuridão, como se vê em longas metragens “crescidas”. Martin quer-nos a imaginar e a “esperar o pior” com a escolha destes planos. Existe constantemente uma tensão no espectador ao longo da curta, e vai crescendo à medida que o enredo e o contexto são desvendados.

Não consigo realçar o suficiente: o performance da atriz australiana Matilda Brown é brilhante. O desempenho dela como robot torna tudo muito mais assustador. Não duvidei uma única vez se ela seria um robot ou não. No entanto, o papel não é “exageradamente robótico”. É apenas o suficiente para nos apercebermos que algo está errado. Ver efeito Uncanny valley (em português “Vale da estranheza”).

A presença de passagens bíblicas ajuda em todo horror. À primeira vista pode parecer algo forçado. A presença de religião é conhecida no género (Exorcista, Amityville, etc, etc). Mas não, aqui é claramente diferente. À medida que legendava a curta apercebi-me ainda melhor disso.

A passagem bíblica referida é (traduzida):

15 Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores.
16 Por seus frutos os conhecereis. Porventura colhem-se uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos?
17 Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus.
18 Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons.

Essencialmente, sem querer entrar em preciosismos religiosos, a passagem indica-nos que devemos acautelar-nos dos “falsos profetas” (os lobos). E como os reconhecemos? Através dos seus frutos. Se os frutos forem bons, a árvore é boa, se os frutos forem maus a árvore é má. Simples.

A epifania acontece quando tentamos encaixar a iMom nesta metáfora. Será a iMom o lobo ou a ovelha? Uma árvore boa ou má? A resposta é nenhum deles. A iMom é um fruto, não a árvore. Apesar de vermos a iMom de uma forma “humana”, ela é um fruto do Homem, tal como qualquer outra ferramenta. E será este fruto bom ou mau? Não podemos responder esta pergunta de ânimo leve. A resposta a esta pergunta é importante, pois responderá automaticamente se a humanidade é benigna ou maligna e, sendo nós parte dela, responde se o espectador é bom ou mau.

Sobre o autor do artigo
- Músico, compositor e licenciado em informática mas acima de tudo um curioso amante de todas as formas de expressão, vulgarmente chamadas de "arte".