Hibernation

Agosto 15, 2016 13:39
Mais curtas
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São bons tempos para os leitores do Curta & Meia mais apreciadores da ficção científica. Para além da já considerável coleção de curtas-metragens sugeridas pelo C&M neste género, junta-se Hibernation. É a segunda sugestão sci-fi consecutiva, e tencionamos dar ênfase a este género nas próximas terças-feiras (dica: o Curta & Meia publica curtas todas as terças-feiras).

Apesar de Hibernation gritar “sci-fi” o mais que pode, a vertente de drama é igualmente evidente. Honestamente não me consigo decidir em qual dos dois géneros a curta-metragem brilha com mais força. Senti com igual força tanto o entusiasmo típico de uma ficção científica como o arrepio dramático e romântico do enredo.

Mas antes de falarmos do enredo (há muito a dizer nesse campo), comecemos pela execução. Embora também haja bastante a dizer aqui, não acho que haja tanto, mas pelos melhores motivos. Poderíamos resumir com um simples “brilhante”. Toda a curta parece vinda de uma longa metragem de renome. O visual escolhido é perfeito. Confere-lhe aquela sobriedade característica que inconscientemente tanto contribui para a transmissão do enredo. Os cenários também estão perfeitos. A aeronave parece de facto uma aeronave, pelo menos para o comum mortal do espectador (se alguém da NASA estiver a ler isto, por favor confirme o realismo). De realçar também os performances dos atores. As emoções estão sempre “à flor da pele” a narrativa agradece imenso. Estranhei a início o sotaque de Manuela Vellés. Não sei se foi ou não propositado, mas mais tarde fez todo o sentido uma vez que é revelado que a sua personagem tem de nome “Claire Martínez”, sugerindo ascendências espanholas. Para encerrar o capítulo da execução, não podemos esquecer o CGI incrível que Hibernation nos apresenta.

Joseph Wood, a personagem principal juntamente com Claire Martínez, embarca numa viagem espacial em que estará a maior parte do tempo em Hibernação. A viagem durará pelo menos 50 anos e pretende levar o Homem o mais longe possível, explorando novos horizontes. Pouco é revelado sobre o propósito da missão em concreto. Presumo que devido a dois motivos. Primeiro por ser uma curta-metragem, deixando não muito tempo para detalhes potencialmente desinteressantes. Elaborar um propósito para uma missão espacial desta natureza pode ser bastante complexo. Segundo porque o foco da curta é a relação entre as personagens e não a missão em si. É importante a missão existir, mas não é necessariamente importante o que a missão pretende alcançar para o desenvolvimento da narrativa.

É revelado mais tarde, durante a embarcação, que Joseph Wood e Claire Martínez têm um caso, e estiveram juntos na noite imediatamente anterior. O início da narrativa coloca o espectador do lado de Joseph. Este não compreende o motivo pelo qual Claire teria saído sem lhe dirigir uma palavra, enquanto ainda dormia. Mais tarde, a narrativa coloca-nos no lado de Claire e aí percebemos os seus motivos. Claire está apaixonada por Joseph e sabia da sua partida numa viagem praticamente sem retorno. Por um lado Claire quer pedir-lhe para ficar, mas por outro não quer pedir-lhe que destrua o seu sonho pelo qual tanto lutou. Clair decide “não decidir” e deixa tudo em aberto, como se pretendesse escolher as duas opções em simultâneo.

É neste ponto que Jon Mikel decide contar-nos esta história de uma forma nada linear. A partir deste ponto existem duas narrativas em simultâneo: uma em que Joseph abandona a viagem e decide ficar com Claire e outra em que Joseph embarca na viagem e volta 50 anos depois. À primeira vista pode deixar o espectador menos criativo um pouco confuso. Afinal Joseph partiu ou não na missão? Existem várias repostas possíveis.

Universos paralelos? Porque não? A narrativa pode simplesmente ter tomado uma dimensão maior e passar a operar no campo nas possibilidades.

Na física quântica uma partícula pode assumir uma sobreposição de estados. Uma partícula pode exisitr em dois sítios em simultâneo e existe uma interpretação chamada de “many worlds interpretation”. Jon Mikel pode ter simplesmente ter transposto esta visão num romance, numa simples decisão.

Outra hipótese é esta narrativa ter ocorrido apenas dentro da mente de Claire enquanto decidia se acordava Joseph ou não.

Seja qual fôr a explicação, são-nos apresentadas as duas hipóteses. Óptimo! Temos duas curtas numa só. O que é realmente importante é a mensagem de que simples e pequenas decisões têm consequências drasticamente diferentes. É referido várias vezes na curta o “e se”. E se Joseph tivesse optado por medicina como seu pai gostaria? E se?

Não posso deixar de mencionar algumas referências. Se gostaram deste tipo de narrativa não podem mesmo perder “Mr. Nobody”. Foi um filme que me ocorreu imediatamente. Como é sabido, no C&M somos fãs de Interstellar (ver post). Foi outra longa metragem em que encontrei várias semelhanças, principalmente na forma como ficção científica e drama podem funcionar tão bem.

Hibernation honra o género cinematográfico que é a curta-metragem. Definitivamente algo a ver e recordar.

Sobre o autor do artigo
- Músico, compositor e licenciado em informática mas acima de tudo um curioso amante de todas as formas de expressão, vulgarmente chamadas de "arte".