Douro, Faina Fluvial

Agosto 24, 2015 11:41
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Douro, Faina Fluvial é a primeira aventura no mundo do cinema do mestre Manoel de Oliveira. Lançada em 1931, a curta-metragem enquadra-se no estilo de sinfonia de cidade, uma corrente cinemática em voga na altura. Berlin: Symphony of a Great City (1927), de Walter Ruttman, ou o singular Homem da Câmara de Filmar (1929), de Dziga Vertov, são dois exemplos bastante reconhecidos.

Este tipo de filmes guiava a audiência pela cidade de preferência (Ruttman escolheu Berlim, Oliveira o Porto) com uma câmara dançante, ao som de trechos musicais que ao longo dos tempos foram reescritos e adaptados por diferentes bandas e sinfonias. Ora, o primeiro filme de Manoel de Oliveira deve muito a esta tradição de montagem russa, eisensteiniana, numa veia documental que é particular aos anos 20 e 30 do século XX.

Em Douro, Faina Fluvial, o realizador move a câmara pela parte ribeirinha da cidade, repleta de pescadores e outros profissionais da época, que enchem os enquadramentos de energia e vivacidade. Oliveira conjuga o esforço humano com o poderio das máquinas, quase como uma Ode Triunfal fílmica, junto com todo o fetichismo mecânico de um qualquer Pessoa. Assim que prende a atenção do espetador, teima em não a largar.

Os paralelos, ainda que óbvios, são extremamente bem construídos para uma primeira curta-metragem, e a cinematografia fantástica tem das imagens mais belas na obra do centenário realizador. Só os primeiros minutos são uma autêntica masterclass em enquadramento e montagem, estabelecendo de imediato a geografia da cena e o esforço laborioso do povo português.

Uma justaposição de civilização e indivíduo, como só Oliveira sabe realizar.

João Santos
Sobre o autor do artigo
- Cinéfilo convicto, que passa demasiado tempo colado ao ecrã. Estudante de Tecnologias da Comunicação Audiovisual, com um especial carinho pela crítica e conversa acerca de cinema e televisão.